Mostrando postagens com marcador A Cruz do Santa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A Cruz do Santa. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Lideranças falam em novo “marco zero”


Todos os postulantes à presidência do Santa Cruz para o biênio 2009/10 abriram mão das candidaturas em prol da do secretário de Desenvolvimento Econômico, Fernando Bezerra Coelho. Todos apostam que ele pode atrair investidores para aliviar todos os problemas tratados pela série encerrada hoje pelo JC. Marcos Leandro

mleandro@jc.com.br

Antônio Luiz Neto, Fernando Veloso, Romero Jatobá Filho, Fred Arruda, Felipe Rego Barros, Ricardo de Paula, Rui Monteiro e até o ex-jogador Ramon. Depois do empate por 1x1 com o Campinense, no Arruda, que praticamente eliminou o Santa da Série C do Brasileiro, muitos foram os nomes ventilados para a suceder Edson Nogueira, Edinho, na presidência coral. O pleito, que foi antecipado do dia 12 de dezembro para 30 deste mês –, se anunciava como um dos mais acirrados dos últimos tempos, mesmo com o tricolor endividado e momentaneamente sem divisão a disputar no Nacional em 2009.

O bate-chapa e todo esse cenário esvaiu-se em virtude da candidatura do secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado e presidente do Porto de Suape, Fernando Bezerra Coelho, 50 anos, natural de Petrolina, na qual já foi prefeito em três oportunidades. Até então desconhecido do grande público no cenário futebolístico, ele aceitou a missão de tentar resgatar a nau tricolor, hoje afundada em um mar de dívidas (estimadas em R$ 60 milhões) e decepções. Todos os grupos políticos retiraram suas candidaturas, apostando na capacidade de Bezerra Coelho atrair investimentos.

O discurso das lideranças corais é que o Santa pode estar vivendo um “marco zero”, mesmo aos 94 anos de vida. Para grande parte da torcida, Fernando Bezerra Coelho surge como salvador da pátria. Mostrando satisfação com o convite, o secretário rechaçou logo o rótulo. Segundo ele, vai ser preciso muito trabalho de todos os tricolores na tentativa de soerguer o clube.

E ao que parece, ele está querendo trazer nomes de peso para o Arruda. Pessoas que não vinham envolvidas no processo eleitoral do clube. “O secretário comentou que queria um nome de impacto na sociedade para o Conselho Deliberativo e chegou a citar o nome de Marcos Magalhães, presidente do Conselho da Philips, só como exemplo. O importante foi que todos os grupos que postulavam à presidência do clube deixaram Bezerra Coelho bem à vontade para definir sua equipe de trabalho”, destacou Fred Arruda, da Aliança Coral. O nome do senador Marco Maciel também foi ventilado, assim como os deputados federais Bruno Rodrigues e André de Paula.

Na próxima sexta-feira, está marcado um novo encontro, agora para decidir a formação da chapa do Conselho Deliberativo. Nomes de cerca de 300 conselheiros estão sendo recolhidos. O vice do Executivo só deve ser decidido na semana que vem, já que a chapa poderá ser registrada até o dia 22 deste mês.

“A tendência é que o secretário traga gente nova para dentro do clube e isso é bom, pois quem vier não vai ter o ranço político. Fiz apenas um pedido, se alguma outra facção for contemplada com um cargo, gostaria que Antônio Luiz Neto ou Ricardo de Paula também fizessem parte. Eu, particularmente, vou ajudar de outra forma”, disse Romero Jatobá Filho, que era vice na chapa União de Verdade, encabeçada por Antônio Luiz Neto. Antes, Romerito tinha tentado lançar Ricardo de Paula, que comandou a comissão patrimonial na sua gestão.

“Recuperação do Santa exigirá calma”

Secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado e presidente do Porto de Suape, Fernando Bezerra Coelho, 50 anos, aceitou o desafio de comandar o soerguimento do Santa Cruz. Atarefado, ele assume que vai montar uma equipe de trabalho para servir integralmente ao clube, hoje eliminado do Nacional.

SALVADOR-DA-PÁTRIA

Não existe salvador-da-pátria. O projeto de recuperação do clube precisa do apoio de todos os tricolores. Como torcedor, nunca imaginei que poderia viver esse momento. Porém, ser presidente do Santa Cruz é uma satisfação pessoal. A recuperação do Santa exigirá calma. O pensamento primeiro é voltar para a Série C depois para a B do Brasileiro.

TEMPO

Será muito complicado conciliar as tarefas de secretário de Estado e a de presidente do Santa. No entanto, foi me concedida a liberdade para montar uma equipe profissional que possa se dedicar integralmente ao clube nos próximos dois anos. Dessa forma, ficarei liberado de algumas atividades do dia-a-dia para me concentrar em articular políticas estratégicas para captação de recursos para solucionar problemas emergenciais e também formar um time competitivo já para o Pernambucano.

DINHEIRO E PROJETOS

A torcida é imensa, sobretudo nos segmentos C e D. Tem empresas de material esportivo, bancos e supermercados, interessadas nesse público. Minha primeira medida foi pedir uma auditoria ao presidente Edson Nogueira, para conhecer a realidade das contas do clube. A partir daí, também vamos realizar um projeto para a recuperação do Arruda (o anel superior está interditado), como também das categorias de base.

EQUIPE DE TRABALHO

Para minha alegria, recebi o aval para formar as duas chapas (Conselho Deliberativo e Executivo). Estamos conversando com alguns nomes novos e fiquei muito feliz de ter recebido o apoio das lideranças do clube, independentemente de cargo.

TÉCNICO

É prematuro para falar em perfil de técnico. Não sabemos nem quem vai ser o responsável pela gestão do futebol, quanto mais para especular nome de treinadores.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Um gigante ocioso


Carlyle Paes Barreto

carlyle@jc.com.br

Patrícia Alves

pbarbosa@jc.com.br

Mundão, Colosso, Gigante do Arruda. Os adjetivos são vários para o estádio do Santa Cruz. E quase sempre utilizados de forma positiva. Mas o maior orgulho da torcida coral vem sendo um problema a mais nesta crise que parece sem fim. Este ano, deu mais prejuízo do que lucro, transformando-se num peso extra para a direção do clube.

Ultrapassado, a exemplo da maioria das praças esportivas do Brasil, o Arruda parou no tempo. Apesar de ser o estádio mais novo da capital pernambucana (construído em 1972), não recebe mais jogos internacionais. O último foi há 13 anos, no amistoso em que a seleção brasileira venceu a Polônia por 2x1.

O local também não foi concebido para abrigar outros eventos, embora já tenha sido alugado para a encenação da Paixão de Cristo do Recife, de evento evangélico e até para o show do grupo musical Menudo, no início da década de 80. Uma megaestrutura que ficou ociosa. Principalmente agora, com o time profissional em férias prolongadas.

“O Santa Cruz não construiu o Arruda. Ganhou de presente e não tem condições de mantê-lo”, admite o próprio presidente tricolor, Edson Nogueira, Edinho, referindo-se ao fato de o governo do Estado ter bancado a construção e, depois, as ampliações.

Edinho, bastante questionado pelo desempenho do time dentro de campo, sofreu com falta de manutenção do José do Rego Maciel, que culminou com a interdição do anel superior durante toda Série C do Campeonato Brasileiro. Mais prejuízo.

“Contávamos com 30 mil lugares da Campanha Todos com a Nota, mas, com a interdição, tivemos que trocar apenas 15 mil bilhetes”, lembra o superintendente do clube, Luís Cláudio. “E esses ingressos rendiam ao Santa R$ 3,5 cada. Mas com impostos e taxas, ficavam apenas R$ 2 por bilhete. É impossível fazer futebol assim.”

A situação tomou proporções inadministráveis com a campanha do time no Nacional. Para os últimos jogos, os atletas passaram a treinar apenas em um expediente, pela manhã, por conta da falta de energia. Os vestiários ficavam mais escuros à tarde. Não havia dinheiro nem para comprar o óleo diesel que abastece o gerador. Na semana passada, parte dos jogadores chegou a tomar banho, após o treinamento, com a água da piscina do clube. O fornecimento d’água também está cortado.

“Como o clube deve mais de R$ 500 mil à Celpe, o jeito foi passar a utilizar geradores, o que duplica o gasto mensal com energia. Com a energia elétrica eram R$ 20 mil por mês, agora, só com o aluguel dos geradores, chegamos a gastar R$ 30 mil, em média, fora o óleo diesel”, explica o superintendente.

O Santa desembolsa mais de R$ 50 mil com a folha de pagamento dos funcionários administrativos. O custo total para manter o Arruda é R$ 100 mil por mês, levando-se em conta também os departamentos de futebol profissional e amador, sem contar com salários de atletas. A receita de sócios não passou dos R$ 90 mil. “No mês passado, havia 3.121 sócios em dia. E deve diminuir”, resigna-se o dirigente. “O maior desafio é agora. Sem receita, sem salários e com a barriga vazia.”

Luís Cláudio ressalta que o clube aprendeu a manter o estádio com uma receita pouco moderna: as doações. “Mas elas dependem muito do desempenho do time dentro de campo. Agora piorou. Tivemos até que liberar os juniores até outubro. O prejuízo só faz aumentar”, reclama. “É um patrimônio que o Santa tem e não consegue manter”, completa.

PROPOSTA POLÊMICA

O publicitário José Nivaldo Júnior, ex-conselheiro coral, defende o arrendamento do Arruda. Ele gostaria de ver o estádio José do Rego Maciel entregue a empresários. “Se o Santa Cruz não consegue manter o Arruda deveria fechar a sede, alugar tudo aquilo para algum grupo. Os dirigentes passariam a gerir o clube numa sala no prédio da própria Federação Pernambucana”, sugere.

“É como administrar uma cidade”


Administrar o Mundão pode ser como dirigir uma pequena cidade. Os gastos mensais com iluminação, água e funcionários do Arruda são comparados aos de uma prefeitura de um município de 30 mil habitantes, como Vicência, por exemplo, na Zona da Mata do Estado. Além de uma subestação de energia elétrica, são mais três geradores, quatro poços artesianos, cinco reservatórios d’água, 45 banheiros, 112 funcionários administrativos e mais 18 exclusivos da Comissão Patrimonial.

“Comparo o Arruda à uma miniprefeitura. O tamanho, a forma funcional e a distribuição das tarefas se parecem”, explicou o ex-presidente do Santa Cruz João Caixero. Porém, o tricolor de hoje o permite comparar à uma cidade falida já que os “impostos” recolhidos são oriundos de um futebol decadente. “É complicado manter toda essa estrutura sem o futebol funcionando. Essa é a grande dificuldade. O Arruda é administrável, mas a receita depende da representatividade do futebol em campo”, justificou Caixero.

O complexo do José do Rego Maciel inclui uma concentração para 25 profissionais, com 10 quartos com TV a cabo, chuveiro elétrico e ar-condicionado. Além de cozinha industrial, sala de vídeo, sala para palestras, sala de internet, academia, sala de fisiologia, consultório odontológico (que nunca foi utilizado), departamento médico reformado e lavanderia.

Também há uma concentração para os juniores que abriga até 30 atletas, no entanto, as obras de reforma estão paradas.

Mesmo com uma das maiores torcidas do Brasil, o Santa Cruz não possui lojas próprias do clube em seu estádio. Há apenas uma arrendada. As outras, que eram alugadas, foram destruídas durante a administração de Edinho para a construção de um ponto do Habib’s, o que nunca aconteceu. Em temporadas melhores, segundo Caixero, o Santa Cruz vendia cerca de 800 mil camisas oficiais. Hoje, os números são irrisórios. Até o projeto de um campo para futebol society sofreu com o abandono e nunca foi concluído. “Permaneceu o campinho que mais parece um campo de subúrbio. Só areia”, diz o superintendente Luís Cláudio.

O Santa também possui débito antigo de fornecimento de alimentação com o Bar do Galvão, por isso o estabelecimento não paga aluguel ao clube.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Torcida tricolor promete fidelidade


Apesar de ver o Santa Cruz passar pela pior crise de sua história, de ser eliminado das disputas do Brasileiro e de ver os jogadores sofrendo humilhações, a torcida do Santa Cruz promete seguir firme. Prenúncio de um futuro promissor. E é pensando na frente que os bastidores começam a ferver. Hoje o secretário Fernando Bezerra Coelho pode oficializar a candidatura à presidência do clube.

Torcida coral sente golpe, mas promete se levantar

Dia 6 de julho, 10h. Mesmo após o sétimo lugar no Campeonato Pernambucano e a eliminação na Copa do Brasil para o Fast Club-AM, a torcida do Santa Cruz era só entusiasmo em Goiana, na primeira parada da caravana que rumava a Campina Grande para assistir à estréia na Série C contra o Campinense. Dois meses depois, a massa tricolor está cabisbaixa. Não para menos, o Santa, por enquanto, é um clube sem série a disputar no Campeonato Brasileiro de 2009. No entanto, nada como um dia após o outro. A galera coral acusa que sentiu o golpe, mas promete não abandonar o clube jamais e aguarda com ansiedade a definição do novo mandatário coral. Sofrendo duplamente, ex-craques dão sugestões para o Santinha voltar a ser grande. Esse é o tema de hoje da série A cruz do Santa. Amanhã, um raio-X do Arruda.

Marcos Leandro

mleandro@jc.com.br

Eles extrapolaram o conceito de fidelidade a um clube de futebol. Dentro ou fora de casa, a torcida do Santa Cruz foi nota 10 na Série C do Campeonato Brasileiro. Nos seis jogos no Arruda, o público acumulado foi de 119.364 – média de 19.894, a melhor da Terceira Divisão. Contabilizando as três séries do Nacional, o tricolor tem a oitava melhor média de público (ver quadro ao lado). Em caravanas fretadas ou em carros particulares, a torcida coral também acompanhou o time em Campina Grande (duas vezes, sendo que na estréia, invadiu a cidade com cerca de seis mil pessoas), Caruaru, Mossoró e Juazeiro do Norte. Essa apaixonada torcida, hoje, é alvo de gozação dos rivais e anda de cabeça baixa devido a situação do clube – rebaixado pela terceira vez consecutiva e que em 2009 só jogará a Série D se for bem no Estadual.

Mesmo com toda a dor e incredulidade, os tricolores prometem dar a volta cima e jamais abandonar o clube. “A humilhação que estamos passando é muito grande. Às vezes, ainda me pego chorando. Porém, quero viver meu clube todos os dias, seja no céu ou no inferno. Inclusive, gostaria de ter ido para Salgueiro no sábado, mas não organizaram nenhuma caravana”, disse a psicopedagoga Ana Maria Tenório, 56 anos, que mesmo com a tragédia que assola o Santinha, não deixa de usar a camisa tricolor, como também pulseiras e colares do clube. “Depois de Deus e a minha família está o Santa”, diz Tenório.

Organizadora das caravanas do Santa Cruz para as cidades dos rivais nesta Série C – ao todo, o grupo rodou 3.456 km entre ida e volta (só não viajou para a despedida contra o Salgueiro) – a comerciante Danielle Leal, 27, chegou ao ponto de mobilizar até uma palestra motivacional para os jogadores, antes do último encontro diante do Campinense, no Arruda, que acabou 1x1 e praticamente sepultou as chances do Santa de seguir na competição.

“A gente sabia que o time era limitado e não seria campeão, mas daí ser eliminado na segunda fase foi um absurdo. Convenci um psicólogo amigo meu a dar uma palestra para os jogadores antes do duelo contra o Campinense. O treinador Bagé tinha concordado, mas quando chegamos na sexta-feira (22/8), Bagé tinha acabado o treinamento cedo e não tinha mais ninguém no Arruda. Poderia ser que não adiantasse nada, mas as pessoas no Santa Cruz não quiseram nem ser ajudadas”, desabafou Danielle, conhecida como Dani tricolor. Desgastada com a situação, Dani promete dar um tempo e acompanhar as eleições presidenciais para o biênio 2009/10 de longe. Mas como apaixonada torcedora, no Campeonato Pernambucano, seja na arquibancada ou na social, ele vai estar novamente no Arruda.

O interessante é que, quanto mais o Santa se afunda, mas a torcida mostra sinais de amor incondicional. No Blog do Santinha (www.blogdosantinha.com), que transformou-se no principal fórum de debates sobre o tricolor, o recorde de comentários (400) até hoje foi justamente após o empate por 1x1 com o Campinense, na segunda fase.

Preocupação com o futuro da massa tricolor

Ela tem apenas 11 anos, mas sua paixão pelo Santa Cruz já é de uma pessoa adulta. Yasmin Alexandre da Silva não esconde sua tristeza com a situação do seu clube de coração, mas afirma que jamais vai deixar de amar o vermelho, preto e branco. “Às vezes, me irrito quando ficam soltando gracinha na escola. Mas vou continuar torcendo, mesmo que o time caia para a Série Z”, falou ela, sem tom de brincadeira. “Em dias de jogos do Santa Cruz, ela não deixa ninguém se aproximar da televisão”, entregou o pai Nivaldo Alexandre da Silva, que por sinal, torce para o Sport.

A grande pergunta que fica daqui para frente é saber quantas crianças vão ter esse comportamento. De acordo com especialistas, a seqüência de maus resultados do Santa abala a penetração do clube entre os mais jovens. “Quem já acompanha há muito tempo não será problema. Mas a tendência é que a garotada deixe de torcer pelo clube, sobretudo quando um rival consegue bons resultados (Sport). O Santa Cruz perdeu a credibilidade, precisa de um choque de gestão e deixar de ser um clube de plataforma política”, enfatiza José Carlos Brunoro, especialista em marketing esportivo. Ele conheceu a realidade do Santa em 1995, na época da parceira com a multinacional Parmalat.

Vale a pena destacar que de acordo com uma pesquisa recente da Faculdade de Filosofia do Recife (Fafire), a torcida do Sport é que mais cresce entre os jovens. Cinqüenta e três por cento dos rubro-negros têm entre 16 e 35 anos. E 28% do total têm menos de 25. Já a maior parte dos torcedores do Santa Cruz (53%) tem entre 46 e 60 anos.

Tristes, craques do passado dão sugestões

O caótico momento que passa o Santa Cruz mexe também com ex-jogadores que ajudaram a construir a história do clube. Pentacampeões estaduais (1969/70/71/72/73), Luciano Veloso e Fernando Santana, dois dois maiores ídolos do tricolor, reconhecem que nunca imaginaram que o Santa pudesse atravessar uma crise como esta. Ambos defendem mudanças daqui para frente. Hoje administrador de empresas, Fernando Santana é o mais radical. Para ele, o clube deveria parar suas atividades por uma ano.

“Não sei se seria a solução, mas alguma atitude precisa ser tomada e essa é a minha sugestão. O Santa Cruz ficaria ausente por um ano para que uma completa reestruturação fosse realizada. Uma equipe da grandeza do Santa Cruz tem urgência por resultados e isso impede que o novo presidente equacione as dívidas, pois tem que destinar a maior parte do orçamento para a montagem do time. É preciso parar e repensar a forma de condução do clube”, disse Santana, que foi artilheiro do Campeonato Pernambucano em três oportunidades, 1969/70/72. Nos três anos, Fernando marcou 53 gols, sendo 23 na primeira temporada e 15 nas outras duas.

Ficar um ano parado, segundo ele, não seria uma humilhação para a torcida do Santa Cruz. “Hoje isso já acontece. O torcedor comparece ao estádio porque é apaixonado, mas o clube não vem apresentando bons resultados há muito tempo. E vergonha é pedir socorro à Federação Pernambucana de Futebol, com a cuia na mão, porque não tem dinheiro para restituir os jogadores”, complementou Santana. Na semana passada, o presidente Edson Nogueira, Edinho, admitiu que não tinha R$ 23 mil em caixa para liberar os atletas para seus estados de origem.

Por sua vez, Luciano Veloso não chega a esse extremo de afirmar que o clube precisa parar suas atividades por um ano, mas também prega uma ampla reviravolta no clube. “Precisam urgentemente recuperar a instituição Santa Cruz, pois tudo está decadente. É uma situação que deixa nós, ex-atletas, muito tristes. Ficaram (dirigentes) um querendo mostrar que era mais tricolor do que o outro e levaram o clube a esse caos. Pobre da torcida, que chegou a roubar tijolos dos armazéns para ajudar na reforma do Arruda, nos anos 70. Mas agora é deixar as lágrimas de lado e trabalhar”, enfatizou Veloso, 59 anos, que hoje atua empresariando jogadores. Luciano Veloso fez 409 jogos com a camisa tricolor, entre 1966 e 75, e marcou 174 gols.

Preocupado em não deixar a história do clube morrer, o Blog do Santinha vai começar a publicar artigos de momentos gloriosos vividos pelo clube. “O torcedor, sobretudo o mais jovem, precisa saber quem foi um Ramon, artilheiro do Brasileiro de 1973 com 21 gols”, lembra Anízio Silva, designer da página virtual.

Meninos chamam a responsabilidade no adeus

No último jogo do Santa Cruz na Série C, coube aos jogadores da casa defender as cores do tricolor

Marcelo Sá Barreto

mhenrique@jc.com.br

Enviado Especial

SALGUEIRO – No futebol, faz parte do jogo passar por adversários mesmo sem ter chances de prosseguir numa competição. E acionar garotos forjados em “casa” é um remédio para evitar a apatia do desclassificado. Esta foi a idéia do técnico Charles Muniz, no último encontro do Santa Cruz na Terceira Divisão, diante do Salgueiro. A cartada deu certo. Em vez de um elenco rancoroso ou amargurado, meninos cheios de vitalidade passaram um dia leve, na cidade onde ocorreu o confronto, sábado passado.

Pela manhã, como um grupo sem problemas, os jogadores tomaram o café da manhã e retornaram, logo após, aos seus quartos, antes de ouvir a palavra do professor, marcada para as 11h40. Mas, o que dizer num momento ruim? Charles encontrou o caminho. Antes da reunião, a conversa informal. Contador de histórias, o técnico dava cores a lances de sua vida, passados em outros Estados. O riso discreto tomava conta dos rostos tricolores. De portas fechadas, sem a interferência da imprensa, o recado: “Cada um tem de fazer o melhor, independentemente de vitória. Para chegar em casa e poder olhar com dignidade para a família”, disse.

O glamour, com a desclassificação, esvaiu-se por completo. Não espere torcedores olhando curiosos do lado de fora do restaurante, onde almoçou, ao meio-dia, o elenco. O preço por não estar no ápice é esse: o esquecimento quase total. Um ou outro simpatizante chegou junto para o tradicional “tapinha nas costas”. Nada mais que isso.

A saída para ao último jogo do ano para o Santa Cruz – e para alguns jogadores – aconteceu sem atropelos, às 14h40. A chegada ao Estádio Cornélio de Barros, com direito a escolta policial, idem. Para quebrar o marasmo, um torcedor avisou: “Sou alvirrubro”, disse. “Mas meu coração está com vocês. Vamos lá ganhar. Santa Cruz é tradição”, gritou.

Os últimos toques de Charles foram repassados às 15h30. Sem pressão, pelo menos era o que aparentavam, os meninos entraram em campo. Queriam honrar a camisa coral. A vitória seria o ideal, até para aliviar a tristeza. Ela não veio – por falta de melhor técnica. Raça, vontade e determinação existiram. Até parecia que os tricolores respiravam na competição.

Na volta, em meio à multidão que comemorava a classificação à terceira fase do Carcará, e não estava nem aí para o regresso tricolor, uma certa alegria no ar. Jefferson fez gol, Wagner Rosa também. Nem tudo estava perdido. Ainda de uniforme, entrando no hotel, onde se trocariam para partir para o Recife, por volta das 20h, a certeza de que se os erros não tivessem sido tantos e em doses cavalares, a situação poderia ser bem diferente.

Sinal verde para Bezerra Coelho

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco e presidente do Complexo Industrial de Suape, Fernando Bezerra Coelho, recebeu o sinal positivo do governador Eduardo Campos para ser candidato à presidência do Santa Cruz. A reunião foi no sábado. Mas a candidatura vai depender de um entendimento entre todas as lideranças do clube e dos grupos envolvidos nas eleições.

“A minha disposição de ser candidato à presidência do Santa Cruz continua. Mas vai depender de um consenso, do apoio de todos no clube. O governador sinalizou de forma positiva. Portanto, tenho que conversar com as lideranças do Santa Cruz”, explicou o secretário.

Para chegar ao consenso, Fernando Bezerra Coelho adiantou que haverá uma reunião no final da tarde de hoje. No entanto, o secretário não sabe ainda o local e se será com todos os grupos envolvidos na sucessão de Édson Nogueira. “Vamos tentar uma reunião conjunta. Não se for possível, irei me reunir separadamente com cada grupo. Mas só vou entrar com a minha candidatura se houver união.”

Um dos pontos fundamentais para o secretário Fernando Bezerra Coelho confirmar a sua candidatura é ter uma relatório completo da situação do Santa Cruz, como a questão do patrimônio, financeira, jurídica e outros aspectos que envolve a atual crise do clube. “Tenho que saber tudo, em que terreno vamos pisar para podermos fazer um projeto, um planejamento para o clube.”

As eleições do Santa Cruz, que seriam em dezembro, foram antecipadas para o dia 30 deste mês pelo Conselho Deliberativo. As inscrições das chapas irão até o dia 22. O grupo de Fernando Veloso e Fred Arruda confirmou o apoio a Fernando Bezerra Coelho. O ex-presidente Romero Jatobá, Romerito, também aprova o nome do secretário, mas colocou que antes é preciso conversar, pois o seu candidato é Antônio Luiz Neto.

“O nome de Fernando Bezerra Coelho é uma unanimidade. Mas ainda não nos reunimos. A meu candidato é Antônio Luiz Neto. Mas podemos chegar a um consenso e passar a apoiar o nome de Fernando”, disse Romerito, ontem à noite, por telefone ao Jornal do Commercio.

Sobreviventes do Arruda


O drama dos funcionários comove até o mais duro coração. Eles pagam pela incompetência da direção e do futebol, que teve menos de 6 meses de ação. Amanhã, o amor e o sofrimento da torcida. João de Andrade Neto

jneto@jc.com.br

Sofrer em dobro. Pelo clube do coração e pelo bolso vazio. Essa vem sendo a rotina dos 112 funcionários do Santa Cruz, que há três anos convivem com atrasos de salários. Atualmente, já são nove meses sem receber a remuneração devida. Fora 13º salário e férias. São as maiores vítimas do gravíssimo caos administrativo coral. Se o torcedor comum chora a eliminação da Série C, esses trabalhadores sofrem por, muitas vezes, não conseguirem levar comida para casa. A dívida com os funcionários chega a R$ 700 mil.

Ao chegar no casebre de dois cômodos, localizado em uma viela do Alto do Pascoal, no Zona Norte do Recife, onde o auxiliar de serviços gerais José Ferreira da Silva mora com a esposa e cinco filhos, é possível ter noção das dificuldades.

No telhado, há uma bandeira do Santa Cruz, prova que o orgulho de ser tricolor não morreu. O problema é a fome. E a escuridão, pois há muito a energia foi cortada. Já são 12 contas sem pagamento.

No dia em que a equipe do Jornal do Commercio visitou os Ferreira, José, o único membro da família “empregado” mostrou a despensa vazia e o pouco que tinha para alimentar a família: um punhado de arroz em uma sacola de supermercado. “O dinheiro que recebo para a passagem (R$ 3,50 por dia) eu uso para comprar o pão. Vou andando todos os dias para o Arruda. Muitos fazem o mesmo”, revela o auxiliar, que caminha aproximadamente uma hora e vinte minutos para ir e voltar do local de trabalho.

“Já passamos necessidade várias vezes. Já levei meus cinco filhos para a porta do Arruda para pedir algum auxílio. Ninguém ajudou. Estamos morando aqui porque minha mãe cedeu a casa. Antes ficávamos pulando de casa em casa porque não tínhamos dinheiro para pagar o aluguel”, conta a dona de casa Vilma Maria da Silva, esposa de José.

Com tanta desilusão, já foram vários os pedidos da família para que José largasse o Santa Cruz e procurasse uma ocupação em outro local. O desejo esbarra em um misto de resignação e esperança. “O problema é ele perder o que tem para receber. Resta esperar por uma melhora”, diz Vilma.

José é funcionário com carteira assinada no Santa Cruz há 22 anos, metade do que tem de idade.

Assim como José, a dupla de irmãos Eciélio e Djalma Felipe Santiago, conhece a fundo o Santa. Para ser mais preciso desde 1966. São os funcionários mais antigos do clube. De um tempo em que o clube pagava em dia. Com conhecimento de causa, garantem que nunca presenciaram tamanha penúria. “Esse é o pior momento do Santa, mesmo assim não consigo ficar muito tempo em casa. É triste ver o clube assim, fechado”, lamenta Eciélio, conhecido como Mago, 63 anos, auxiliar geral.

Contido nessa rotina de viver mais tempo no clube do que em casa podem estar muitos fatores. Mas um deles, com certeza, é a preocupação de arrumar, de alguma maneira, algum dinheiro para a família. Sem salário e perspectivas de melhora para muitos o que resta é contar com a boa vontade de alguns tricolores.

“Me deram três dias de folga, mas o que eu vou fazer em casa? Prefiro estar no Arruda e esperar para ver se aparece algum serviço extra ou se alguém para nos ajudar. Ramon, Zé do Carmo e Luciano Veloso (ex-jogadores do Santa) são alguns que sempre ajudam”, conta Djalma, encarregado por cuidar do gramado do Arruda.

Foi assim que José Ferreira conseguiu R$ 6 no dia em que a reportagem do JC esteve no abandonado Arruda. O bem-feitor da vez foi o meia Juninho, que passou no clube para acertar detalhes da sua rescisão de contrato.

E assim esses sobreviventes vão tentando levar a vida. Esperando por dias melhores. Para o Santa Cruz e para a família, já que muitas vezes ambos se confundem.

Futebol teve só 162 dias de ação

Assistir a um jogo do Santa Cruz foi algo raro para o torcedor coral em 2008. A despedida da Série C ontem contra o Salgueiro foi só a 36ª partida do tricolor na temporada – desde que começou a disputar o Campeonato Brasileiro, em 1971, o time não disputava tão poucos jogos num ano. A título de comparação, as Séries A e B do Campeonato Brasileiro possuem 38 rodadas.

Foram só 162 dias envolvido com uma competição oficial, o que dá pouco mais de cinco meses de atividade no ano. Algo impensável para um clube que leva futebol até no nome. Os rivais Sport e Náutico terão 72 e 69 compromissos, respectivamente, até o fim do ano.

Sem jogos, sem receitas – já que a administração do clube adota essa “lógica ilógica” nos últimos 20 anos como foi mostrado na última sexta-feira nesta série. Com dois grandes hiatos na temporada (de abril a julho e de setembro a janeiro de 2009), o já combalido cofre do Santa sofre com perda de rendas, arrecadação com bar e diminuição no número de sócios.

Além disso, as poucas receitas de patrocinadores já foram adiantadas. “No dia em que Edinho (presidente do clube) anunciou a antecipação da eleição, o clube teve uma arrecadação de apenas R$ 90, por exemplo”, revelou o superintendente tricolor Luís Cláudio.

Para tentar sanar um pouco o prejuízo e levar o clube até o término da atual administração, a diretoria determinou, há duas semanas, o funcionamento da sede em apenas meio expediente, tática já utilizada no intervalo de 77 dias entre o Pernambucano e a Série C. Nos sábados e domingos, o clube ficará fechado.

Para se ter uma idéia do prejuízo, em um dia normal é necessário aproximadamente R$ 1.150 para o funcionamento do tricolor. “Com um clube do tamanho do Santa é impensável passar tantos dias sem jogos oficiais. Sinceramente não sei como o clube vai se virar até a eleição. Muitas vezes é preciso Edinho e outros diretores pagarem do próprio bolso”, diz Luís Cláudio.

Para piorar, em nenhuma das 18 partidas disputadas no Arruda este ano, o Santa Cruz pôde contar com boas rendas. Por força do esdrúxulo regulamento do Campeonato Pernambucano, o tricolor não jogou clássicos contra Sport e Náutico. “Na Série C, cada ingresso nosso custava R$ 3,50, mas para o clube, descontado o acordo com a Justiça, sobrava pouco menos de R$ 2 por bilhete trocado. É impossível fazer futebol assim. Não tivemos uma só renda que nos garantisse a semana tranqüila”, revelou o dirigente. A maior renda do Santa no ano foi no jogo contra o Central, pelo 2ª rodada da Série C. R$ 53.642,78 líquidos.

Para o especialista em marketing esportivo, José Carlos Brunoro, que trabalhou no tricolor em 1995, o clube tem que ser reestruturado. “Qualquer empresa quebraria com esse tempo de inatividade. É preciso aproveitar esses meses parados para repensar o clube”, destaca.

Vinte anos de pesadelos


Maior torcida do Estado até a década de 80, o Santa Cruz vem diminuindo. A perda de espaço para os rivais Sport e Náutico em número de torcedores é reflexo não apenas da falta de modernização do clube ou da falta de estrutura. Está diretamente ligada à ausência de títulos e de ídolos. Foram apenas quatro estaduais nos últimos 20 anos. E quatro desastrosas participações em Nacionais. A série A cruz do Santa lembra isso e a perda de jogadores de graça. Amanhã, a crise atinge os funcionários do clube e pára futebol por mais de 6 meses.

Carlyle Paes Barreto

carlyle@jc.com.br

Até a década de 80, o Santa Cruz não era apenas conhecido por conta do Colosso do Arruda. Um gigante também dentro de campo. Então com a maior torcida do Estado, era o clube que melhor trabalhava as categorias de base e quem mais levava público aos estádios, além de demonstrar potencial em formar times que sempre chegavam às decisões. Mas uma crise que começou ainda nos anos 70, e que foi crescendo, passou a ter reflexo nos gramados a partir de 1988. De lá para cá, o tricolor diminuiu. E deu poucas glórias ao povão.

Após o hexacampeonato do rival Náutico (63-68), o Santa Cruz se uniu, idealizou um colegiado e apostou nas crias formadas no próprio clube. O resultado foi o pentacampeonato de 1969 a 73 e as boas campanhas nos Campeonatos Brasileiros de 75 (quarto colocado), 77 (décimo) e 78 (quinto). Sem falar nas revelações como Givanildo, Luciano Veloso, Fernando Santana e Ramon – único artilheiro de um Brasileiro atuando por um time pernambucano, em 73.

Mas os cardeais tricolores foram embora. O colegiado acabou. E a crise financeira começou a assolar o clube, que já não conseguia suportar os gastos com o estádio e com os jogadores. Ano após ano, o buraco foi crescendo. E nenhum dirigente mudou a forma de gestão. Em 84, o então presidente Aristófanes de Andrade renunciou. O primeiro na história tricolor. Assumia Zé Neves, um conselheiro que ganhou visibilidade pelo modo populista como se comunicava com a torcida.

E Zé Neves conseguiu o bicampeonato em 86 e 87, com o goleiro Birigüi, o volante Zé do Carmo, os meias Ataíde e Sérgio China, além dos atacantes Edson, Marlon, Dadinho e Gílson Gênio. Também colocou o clube na Copa União, vendida como a primeira divisão do futebol brasileiro. Mas o dirigente conseguiu os títulos sem planejamento. O rombo só fez crescer, apesar das taças.

E depois das épicas voltas olímpicas, ambas na Ilha, com direito a bandeira fincada no centro do gramado leonino, veio a derrocada. Não de uma vez. Em doses pequenas que estão sendo sentidas até hoje. Desde então, o Santa voltou à elite nacional quatro vezes. E em todas decepcionou (ver quadro ao lado). Ficou nas últimas posições em todas as oportunidades – 1988, 2000, 2001 e 2006. Desceu quando houve rebaixamento (88, 2001 e 2006). E até em nível local, involuiu. Foram somente quatro taças (90, 93, 95 e 2005). Nos dois últimos anos, pífias campanhas. Sexto colocado, em 2007, e sétimo, neste ano, correndo risco até de cair para a Segundona Estadual.

Zé Neves, no entanto, discorda da tese de crise contínua. “Já está provado que quando o futebol está embalado, o clube também vai bem. Em 2006, estava tudo bem no clube. Mas bastou Lecheva perder o pênalti na final do Pernambucano daquele ano diante do Sport para a situação complicar e o clube descer ladeira abaixo”, diz o ex-presidente, responsabilizando o jogador por tudo o que está aí.

Ele, no entanto, admite que não há uma seqüência de modelo de gestão no Santa.

Jogadores perdidos por negligência

Mesmo com a ausência de títulos, em meio a uma crise que parece sem fim, o Santa Cruz conseguiu revelar bons jogadores. E sem um Centro de Treinamento ou mesmo um campo auxiliar para trabalhar os futuros craques tricolores. Mas aí vem o outro lado do descaso dos dirigentes corais: a perda dos direitos federativos desses talentos por pura negligência.

E não foram casos isolados. O tricolor deixou escapar mais de um time de suas fileiras. Jogadores que estavam no auge de suas formas, que eram titulares e poderiam ter rendido alguns milhões de reais aos sangrados cofres do clube.

Jogadores como os zagueiros Bebeto, Rovérsio, Hugo e Valnei, os meias Kássio, Marcelinho e Ricardinho, ou os atacantes Romarinho e, por último, Thiago Capixaba, entre os mais conhecidos.

Todos deixaram o Santa Cruz pela falta de pagamento de salários ou depósito das obrigações sociais, como o FGTS. Numa conta rápida, de empresários ouvidos pelo JC, estimaram um prejuízo que beira os R$ 10 milhões.

Somente Kássio, que passou seis anos no Arruda e deixou o que era sua segunda casa na época, após ter passado sete meses sem receber ajuda de custo, em 2006, tem hoje os direitos avaliados em R$ 4 milhões. “Eu cresci no Santa Cruz. Era perto da minha casa. Foi lá que comecei a minha carreira, mas não dava mais para ficar”, recorda o jogador, agora titular do Sport. “Ganhava apenas ajuda de custo, mas eles (a diretoria) deixaram de pagar”, acrescentou.

O pior é que em quase todos os casos, o tricolor não tentou reaver o seu patrimônio. Kássio foi um deles. O então presidente Romerito Jatobá deixou para lá.

E outros dirigentes fizeram o mesmo. Valnei chegou a ir para o Flamengo. Bebeto foi para o Palmeiras, assim como Thiago Capixaba. Hugo acertou com o Vasco. Jaílson rodou o mundo e hoje está no Coritiba. Retorno zero para o clube revelador.

Nas últimas duas décadas, o Santa Cruz conseguiu arrecadar pouco dinheiro com a negociação de jogadores. Apenas dois atletas formados no clube deram retorno financeiro. O primeiro foi o atacante Maurício Pantera, negociado em 1997 ao Compostela, da Espanha, por US$ 1,5 milhão. O outro foi Carlinhos Bala, que rendeu R$ 1 milhão em 2006, quando trocou o Arruda pelo Cruzeiro.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Tricolor parou no tempo


Marcelo Cavalcante

mcavalcante@jc.com.br

João de Andrade Neto

jneto@jc.com.br

Poucos clubes têm a palavra futebol em seu nome. E pouquíssimos levaram tão ao pé da letra essa nomenclatura quanto o Santa Cruz. Levando em conta os últimos 21 anos da história do clube, o futebol é encarado como única fonte de renda. O termômetro de uma gestão. Nesse mesmo período foram apenas quatro títulos estaduais. A conquista de uma taça, por sinal, é o suficiente para qualquer dirigente encher o peito de orgulho como se fosse algo de outro mundo. Mas foram raras as vezes em que um presidente conseguiu dar continuidade à gestão administrativa do seu antecessor. Todas, aliás, marcadas por empréstimos bancários e pessoais, que culminaram em uma dívida total acumulada de cerca de R$ 60 milhões.

“Na hora em que se assume a presidência do clube e diz-se que o time precisa ser campeão, ele deixa de planejar. Vai agir com a emoção e não com a razão. Ele pode até conseguir o título, mas é algo sazonal. Por isso, o clube precisa ser planejado”, diz Alexandre Mirinda, que presidiu o Santa Cruz no biênio 93/94. Nesse período, o Santa conquistou o título estadual de 93.

Mirinda veste a carapuça. Para ele, todos os presidentes do clube nas duas últimas décadas cometeram erros administrativos que culminaram na crise que o Santa está vivendo. Em 1987, quando houve um enxugamento do Campeonato Brasileiro com a criação da Copa União, o tricolor presidido por José Neves Filho mostrou poder político para ser um dos três convidados do Clube dos 13 para disputar a competição.

No entanto, Zé Neves tropeçou nas próprias pernas e, a partir daí, o clube acumulou dívidas como nunca antes. Em 1988, o Santa foi um dos quatro primeiros rebaixados da história do Brasileirão – ao lado de Bangu, América-RJ e Criciúma. Era o primeiro dos quatro rebaixamentos que se seguiriam nos anos posteriores. Da A para a B em 2001 e 2006, da B para a C em 2007 e eliminação da C – só se fizer um bom Pernambucano 2009 disputará a D. Vale lembrar que nos anos em que não houve rebaixamento, em 1987 e em 2000, os corais também terminaram entre os últimos.

Mesmo assim, Zé Neves discorda de quem pensa que a atual situação do Santa é fruto do acúmulo de erros de gestões anteriores. Ele defende a tese de que o clube depende exclusivamente da renda do futebol para sobreviver. “No Brasil, principalmente no Nordeste, a renda é a principal receita.”

Seu sucessor, Romerito Jatobá, tinha filosofia semelhante, em que o futebol é a mola mestre do clube. “Deu tão certo que o clube conquistou o título Estadual de 2005 e voltou à Série A”, recorda Romerito.

Mas as conquistas do time em campo não se transformaram em alicerces administrativos sólidos. Em 2006, na busca desesperada para evitar o rebaixamento à Série B, Romerito antecipou as cotas de patrocínio e de televisionamento. O rebaixamento veio e o clube endividou-se, com atrasos de salários de jogadores e funcionários e um crescimento nas causas trabalhistas.

Mesmo assim, Romerito acredita que a salvação do Santa está apenas no futebol. “Só para abrir o clube, é preciso ter em caixa, no mínimo, R$ 2 mil por dia. É muito complicado vender uma cota de patrocínio, um prisma publicitário. Por isso, é preciso centrar forças no futebol”, diz.

Nesses últimos 21 anos, raros foram os momentos em que os dirigentes procuraram fontes alternativas de renda. Na gestão de Luís Arnaldo Pessoa de Melo (95/96), o Santa conseguiu algo que parecia ser um divisor de águas. O clube, por meio de influência política, fechou parceria com a multinacional Parmalat, que injetou dinheiro no Arruda. Mas o máximo que conseguiu foi ser campeão estadual em 95. Além disso, adquiriu um terreno em Beberibe, que seria utilizado como um Centro de Treinamento e, hoje, está abandonado.

Em 99, Jonas Alvarenga causou uma revolução ao aumentar o quadro social dos parcos 464 sócios em dia para inéditos 27 mil. “Criamos a categoria sócio-cooperador-fiel, no qual o torcedor pagava uma mensalidade de R$ 5. Nesse caso, havia promoções especiais de ingressos dos jogos. Havia também a opção da mensalidade de R$ 10, que dava direito à assistência médica”, lembra. Com o passar das gestões, nenhuma dessas idéias ganhou prosseguimento. Hoje são cerca de 3,1 mil sócios em dia. Uma pequeníssima fonte de receita.

Tratamento drástico para salvar o clube

Tratar de um paciente com câncer apenas usando xarope. Esta é a analogia feita pelo publicitário José Nivaldo Júnior ao avaliar as medidas utilizadas ao longo dos anos para tentar sanar a crise do Santa Cruz. Polêmico e defensor da idéia de que o Recife não comporta três grandes clubes de futebol, José Nivaldo sugere medidas radicais para o renascimento tricolor. Entre elas, o fechamento da sede social e do estádio do Arruda e o arrendamento de toda a administração do futebol coral para uma empresa.

De acordo com o publicitário, torcedor declarado do Santa, o clube precisa urgentemente se desfazer de parte do seu ocioso patrimônio. Por dia, são necessários cerca de R$ 1.150 apenas para abrir o clube, devido a gastos com óleo para o gerador que produz a energia utilizada, alimentação de atletas, material de limpeza, passagem dos funcionários, entre outros.

“Tudo isso é muito oneroso para o clube, que não possui qualquer recurso. É preciso arrumar uma empresa interessada em investir no local para tirar o custo da manutenção das costas do clube. Se for o caso, comprar o terreno. Até lá, a sede e o Arruda permaneceriam fechados. A administração do Santa precisa se transferir para uma sala, de preferência na Federação Pernambucana de Futebol, para não precisar nem pagar o aluguel”, sugere José Nivaldo.

A idéia de cancelar a atividade do Santa se estende a todas as modalidades esportivas, entre elas, o futebol. “Não adianta tentar manter um time sem condições. A solução seria arrendar o departamento de futebol a uma empresa, que seria responsável por contratar e pagar os salários de todos os jogadores e comissão técnica. O Santa entraria apenas com a marca e os padrões. Até essa parceria não ser fechada, o ideal seria ficar fora das competições”, completa.

“Estou cansado de discurso colocando panos mornos. Ou se toma uma atitude drástica ou o clube fechará definitivamente as portas em pouco tempo. Se essas medidas tivessem sido tomadas há alguns anos, a situação hoje seria outra. Com o time na Série D, tudo fica mais difícil.”

No entanto, as idéias de José Nivaldo Júnior não são bem aceitas pela atual cúpula coral. “Não concordo com fechar a sede e a parte social. O clube perde a identidade. Isso não se aplica a nenhum time grande. Já a questão de privatizar o futebol pode ser viável, desde que a empresa faça um estudo e tenha muito dinheiro para investir”, analisou o superintendente do Santa, Luís Cláudio, homem de confiança do atual presidente Edinho.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Tristeza e tragédia em três cores


O Santa chegou aonde não imaginava: excluído da Série C do Brasileiro. A vitória do Caxias sobre o Brasil-RS, ontem, foi o último golpe – as últimas três temporadas foram de quedas seguidas. Agora, terá de obter um bom rendimento no Pernambucano de 2009 para disputar a recém-criada Série D. De hoje até a próxima quarta-feira, o JC publica a série de reportagens A cruz do Santa que analisa o desastre e abre discussão sobre os caminhos a serem trilhados pelo clube. O primeiro dia trata da gestão Edinho e a cronologia da pior fase em 94 anos de fundação. Amanhã, o modelo de administração – adotado por muitos presidentes – que afundou o Santa.
Marcos Leandro

mleandro@jc.com.br

Rafael Carvalheira

rvieira@jc.com.br

Reduzir toda a culpa da crise do Santa Cruz ao presidente Edson Nogueira, Edinho, é minimizar a história recente do clube, que nos últimos 20 anos só conquistou quatro títulos estaduais – 1990/93/95/2005 – e não conseguiu se segurar na Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro nas duas vezes em que obteve o acesso em 1999 e 2005. Tudo isso reflexo de más gestões administrativas.

No entanto, Edinho, que em dezembro de 2006 assumiu a presidência nos braços do povo em uma eleição histórica, na qual derrotou o candidato da situação, Alberto Lisboa, apoiado pelo grupo do então presidente Romerito Jatobá, é crucificado pela torcida como o principal responsável pelo colapso que vive o clube. De fato, Edinho assumiu sua grande parcela de culpa por seus quase dois anos de fracassos e quedas.

Chegou ao poder dizendo que era um vencedor. Em meio a inúmeras frases de efeito, afirmou que “entre mais de um milhão de espermatozóides, fui o único a fecundar”. Mas a situação não permitia brincadeiras. Levou, logo de cara, o primeiro golpe. Anunciou Evaristo de Macedo, um companheiro antigo, como novo treinador. Evaristo recusou a proposta. Veio então Givanildo Oliveira, que ainda no Estadual foi para o Vitória-BA. No seu lugar assumiu Charles Muniz, que levou o clube à sexta colocação no Campeonato Pernambucano.

Ao passo que os resultados não davam certo dentro de campo na Série B, Edinho sofria outras derrotas. O vice-presidente, Fred Arruda pediu licença do cargo alegando centralização de poder por parte do presidente. Curiosamente, o mesmo discurso adotado por Edinho ao deixar o clube em 2005, quando era vice de Romerito. Outros diretores, como Sylvio Belém, foram e voltaram.

Essa turbulência nos bastidores fez com que a política do clube muitas vezes tomasse o espaço e a preocupação que deveriam ser destinados ao time dentro de campo, acumulando uma péssima campanha na Segundona. A queda era uma ameaça latente.

Mesmo contrariando a torcida, Edinho manteve Charles Muniz no comando do time até a 12ª rodada. Para o lugar dele, veio Mauro Fernandes. A troca foi um desastre. Sem vitórias, Mauro abandonou o Santa praticamente rebaixado. No desespero, o zagueiro Adriano comandou o time na derrota para o Criciúma, pondo os corais na Série C. Para desviar o foco do fracasso, Edinho ofereceu denúncia de uma suposta nova máfia do apito. Até agora, sem repercussão.

Virou o ano e em 2008 esperava-se uma reação. A Federação Pernambucana de Futebol (FPF) deu uma “mãozinha” ao arquitetar um regulamento que evitava o confronto com os rivais Sport e Náutico, integrantes da elite do Brasileiro.

Edinho firmou parceira com Ricardo Rocha, ex-zagueiro do clube e agente de atletas. Zé do Carmo, outro ídolo, foi colocado como treinador, mesmo com a rejeição da maioria. Zé do Carmo não terminou o primeiro turno, assim como a sociedade com Ricardo Rocha. Demitido após derrotas para Ypiranga e Central, Zé deu lugar a Fito Neves. A substituição não salvou o Santa do hexagonal da morte, que rebaixaria duas equipes para a Segundona Estadual em 2009, “punição” da qual o Santa escapou.

O novo vexame no Pernambucano fez florescer rixas entre grupos políticos. Liderados pelo conselheiro Fernando Veloso, o Veneno Coral pediu a cassação de Edson Nogueira. Após batalhas de liminares, ficou tudo no mais do mesmo. Edinho continuou e começou a montar, com um desmotivado Fito Neves, o time para a disputa da Série C. Contratou alguns destaques de times do interior do Estado e apostou em indicações do futebol paraibano, mais precisamente do Treze-PB, vice-campeão estadual.

O time não se acertou. Mesmo com o apoio irrestrito da torcida, no Arruda e fora de casa. Bagé, ex-Icasa-CE, chegou para o lugar de Fito Neves e classificou o time à segunda fase. Mas, com um jejum de sete jogos sem vitória, o Santa está eliminado do Campeonato Brasileiro, pela primeira vez – para disputar a Série D deverá ficar entre os melhores do Pernambucano 2009.

“Desligava o rádio para não escutar”

Eleito como “salvador-da-pátria”, Edson Domingues Nogueira assume a culpa pelo caos em que o Santa está hoje e diz que passará a real situação ao sucessor.

JC – O senhor errou?

EDINHO – Todas as falhas fui eu que cometi, o regime é presidencialista. Se houve acertos, foram de todos. As falhas são exclusivas do presidente. Não posso estar fazendo caça às bruxas, dizer que toda esta situação vem de décadas. Não, não, não, não...Quando alguém assume um cargo desse, sabe de tudo.

JC – Como o sucessor vai encontrar o clube?

EDINHO – Em seriíssimas dificuldades. E vai ser tudo passado de forma clara. A situação do clube é realmente ruim. Mas, se houver um consenso, porque união é balela, é possível torná-lo viável novamente.

JC – O senhor aconselharia um amigo a ocupar o cargo?

EDINHO – Desde que viesse disposto a ouvir todas as partes e sofrer várias decepções. Todo mundo sabe que vou para todo lugar, ando sempre só e com a consciência tranqüila. Tenho certeza de que fiz o melhor. Não foi o melhor em termos de resultados. Mas procurei dignificar o cargo. Infelizmente, serei avaliado pelos resultados.

JC – A sua relação com pessoas próximas mudou por conta da crise?

EDINHO – Muda porque obviamente cada um tem o seu ponto de vista. Quem vive em coletividade convive com a discórdia e a divergência. Mas isso eu respeito. Nunca houve aqui, sob momento nenhum, falta de respeito às pessoas. Houve os desencontros e vão continuar havendo. São problemas corriqueiros e que acontecem até mesmo nas nossas casas.

JC – Com, pelo menos, oito possíveis candidatos, o processo eleitoral começa mal para um consenso?

EDINHO – Pior do que isso era a Espanha. A Espanha hoje é uma potência. Lá, não houve unanimidade, mas houve o consenso. Saiu da ditadura e atualmente é essa força. Espero que no Santa Cruz, pela sua grandeza, pela sua pujança, as pessoas, no mínimo, ajudem o clube, independentemente de gostarem ou não do próximo presidente.

JC – Como será conduzida a transferência do cargo, inclusive com os vários documentos perdidos?

EDINHO – Tudo aparece. Quando existe a boa vontade e a dignidade, não há nada para esconder. A notícia mal dada pode virar sensacionalismo. Notícia dada com verdade é feito estou dizendo. O clube atravessa situação difícil, de arrumar passagens de volta para os atletas, de honrar os compromissos com os funcionários, de comprar o diesel para o gerador. Tenho de mostrar para tentarem resolver.

JC – O senhor teme uma auditoria em sua administração?

EDINHO – Não vou pedir auditoria, nem ninguém vai pedir isso. Há uma auditoria feita na nossa gestão. O encarregado disso é inclusive da Receita Federal, que é Jomar Rocha (diretor de futebol). Quer maior lisura do que isso? O máximo de facilidade vou repassar.

JC – Como se comportou o torcedor Édson Nogueira nas derrotas?

EDINHO – Choro, rio, brinco, tenho sensibilidade, sou normalíssimo. Óbvio que não me sentia bem. Nos jogos em que ficava ouvindo, meu Deus do Céu, pensava que as transmissões iam me matar. Começava numa rádio, mudava para outra. Depois não conseguia mais e desligava.

JC – O Santa volta para a Série A?

EDINHO – Volta. Mas não será fácil.

JC – Com Édson Nogueira?

EDINHO – Deixa a juventude vir. Entendo que não sou muito acessível. Tenho meus conceitos. Você não colabora e quer mandar, não manda. Você não ajuda e liga dando pitaco, não vou ouvir. Sou assim mesmo. Você vem e participa, manda. Não vem e não participa, não manda.

Pênalti de Lecheva vira uma maldição

Certa vez, perguntado em entrevista pelo JC o que havia causado o rebaixamento do Santa Cruz da Série A para a B do Campeonato Brasileiro, no fim da temporada de 2006, o ex-presidente Romero Jatobá Filho – que concorrerá a eleição como vice de Antônio Luiz Neto, na chapa União de Verdade – disse que um dos grandes motivos foi o pênalti perdido pelo meia Lecheva, no dia 9 de abril daquele mesmo ano, na Ilha do Retiro, dando o título do Pernambucano ao Sport. A partir de então, os corais estariam condenados a viver uma sucessão de tragédias e provações.

Não sabia Romerito, na ocasião, que um pênalti perdido por um jogador tivesse tantos poderes sobrenaturais para seguir castigando dirigentes, jogadores e, sobretudo, os torcedores. O catastrófico desfecho é a eliminação do Brasileiro. Transformado em profecia e maldição, o lance de Lecheva, na verdade, contém uma representação de incompetência. Não de um mero erro esportivo. Mas serve como símbolo de mais uma desculpa encontrada para esconder equívocos e mais equívocos administrativos.

Afinal, seria no mínimo inocência debitar na conta de um pênalti perdido por um atleta profissional todas as amarguras de, pelo menos, dois anos e meio seguidos. O exemplo vem de perto. O próprio Náutico perdeu o Estadual de 1983 nos pênaltis para o Santa Cruz. Não sucumbiu. Nos dois anos seguintes, sagrou-se bicampeão pernambucano e ainda terminou na sexta colocação da edição de 1984 da Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro.

Ou ainda a Itália, com Roberto Baggio. Em 1994, o meia, considerado um dos mais inteligentes jogadores de todos os tempos, errou feio o pênalti que concedeu o tetracampeonato mundial ao Brasil, nos Estados Unidos. Em 1998, foi a vez de sair nas quartas-de-final para a dona da casa França, novamente nas cobranças de penalidades. Ninguém baixou a cabeça ou deixou de classificar a seleção para as edições seguintes da competição. Em 2006, na Alemanha, veio o tetra...E nos pênaltis.

Para ficar apenas dentro de campo, desde aquela trágica noite na Ilha do Retiro, 160 jogadores vestiram a camisa do Santa Cruz em, pelo menos, uma partida oficial. Mais recentemente, no intervalo de dois meses e meio do Estadual para o Brasileiro, foram 22 contratações, na maioria “achados” nos clubes do interior de Pernambuco e da Paraíba. Muitos deles não atuaram mais que uma partida na Terceirona. Houve inclusive quem não conseguiu sequer estrear.

Treinadores também são um capítulo à parte. De Lecheva até hoje, 13 pessoas estiveram à frente do comando técnico coral, fosse de forma efetiva, fosse interinamente. Fito Neves, por exemplo, passou duas vezes pelo Santa nesse período sem obter sucesso. A primeira delas, durante a Série A de 2006, a outra, entre a segunda fase do primeiro turno do Estadual desta temporada e as três primeiras rodadas do Grupo 5 da primeira fase da Série C. Ao todo, foram cinco interinos e oito contratados.